Maria Eysianne Alves Santos
Avaliação da qualidade de vida e da saúde mental de profissionais dos Centros de Atenção Psicossocial de Maceió-AL: um estudo de métodos mistos
Resumo
Introdução: A relação entre saúde mental e qualidade de vida tem sido amplamente debatida no campo da saúde do trabalhador, dada a influência recíproca e complexa entre essas dimensões. A saúde mental exerce impacto direto sobre a percepção de qualidade de vida, a qual, é compreendida como uma construção multidimensional que envolve aspectos subjetivos, sociais e laborais. Nessa perspectiva, compreender a promoção da saúde mental requer também a análise de indicadores voltados à prevenção e vigilância dos Transtornos Mentais Relacionados ao Trabalho (TMRT). No Brasil, estes agravos configuram-se como um desafio persistente para a saúde pública, associados a elevados índices de absenteísmo, afastamentos laborais e redução da produtividade. Em Alagoas, entre os anos de 2019 e 2023, foram registrados 473 casos de TMRT, dos quais 386 ocorreram no município de Maceió. As notificações são realizadas por categoria profissional, sem descrever os estabelecimentos que os profissionais trabalham. Essa ausência limita uma análise mais detalhada sobre os contextos institucionais em que esses transtornos são desencadeados. Objetivo: Avaliar a qualidade de vida e a saúde mental dos profissionais atuantes nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) de Maceió-AL. O estudo teve como questão norteadora “como a prestação de serviços nos CAPS influencia a qualidade de vida e a saúde mental dos profissionais que neles atuam?” Método: Estudo misto, de caráter exploratório, com notação QUAL → quan, no qual foram utilizados instrumentos semiestruturados e estruturados. Foi aplicado um questionário semiestruturado com perguntas abertas, fundamentadas na teoria de Dorothea Orem e nas escalas Goldberg e WHOQOL, possibilitando respostas mais aprofundadas. Em seguida, foram aplicadas escalas do tipo Likert para mensuração da saúde mental (Goldberg-12), qualidade de vida (WHOQOL-Bref), bem-estar afetivo no trabalho (Job-related Affective Well-being Scale - JAWS) e autoestima (Escala de Rosenberg), todas validadas para o contexto brasileiro. Os dados qualitativos foram submetidos à análise temática, com suporte teórico em Minayo e processamento do corpus textual no software IRaMuTeQ. Enquanto os dados quantitativos, provenientes das escalas estruturadas, foram organizados em Microsoft Excel e processados no Statistical Package for Social Science for Windows (SPSS) na versão 31. Para análise foram utilizados testes de acordo com o tipo de escala, usados testes Qui- quadrado, análise Bayesiana, coeficiente de Alfa de Cronbach. A integração dos resultados (joint display) foi realizada com apoio do MAXQDA que proporcionou a análise de sentimentos das falas elencadas para integração junto a uma meta- inferência. Resultados: O estudo foi conduzido em cinco CAPS do município de Maceió-AL, com coleta de dados no período de fevereiro a outubro de 2025. Os participantes foram distribuídos em 15 integrantes da etapa qualitativa e 40 da quantitativa. Na abordagem qualitativa, os profissionais apresentaram concepções de saúde mental e qualidade de vida em consonância com a literatura científica contemporânea, reconhecendo ambas como dimensões interdependentes e permeadas por fatores subjetivos e contextuais. Contudo, identificou-se a necessidade de aprofundamento em aspectos técnicos, especialmente relacionados às notificações dos TMRT e à identificação de quais transtornos são passíveis de notificação. Tal lacuna evidencia fragilidades formativas e institucionais que podem impactar na vigilância em saúde mental e na efetividade das políticas públicas de promoção da saúde voltadas à saúde do trabalhador. Outro achado relevante refere-se à valorização da saúde mental e do autocuidado como elementos essenciais para o bem-estar e para a promoção da saúde (p<0,001), tanto no contexto pessoal quanto profissional, indicando que os participantes reconhecem-se como sujeitos de cuidado e agentes promotores de saúde. JAWS levemente positivo e negativo,indicando que não houve extremos de bem- estar ou mal-estar, com correlações entre z = -0,0 a z = -1,23 e ( p > 0,05). WHOQOL de 65% satisfatória para o grupo entrevistado indicando qualidade de vida moderada para positiva. Conclusão: Os resultados sugerem que os trabalhadores dos CAPS compreendem a importância do autocuidado e do equilíbrio entre saúde mental e qualidade de vida como dimensões interdependentes de sua prática profissional. Essa compreensão evidencia a internalização dos princípios da promoção da saúde, ainda que persistam desafios relacionados ao reconhecimento institucional, à capacitação técnica e à implementação de políticas de suporte que amparem o investimento emocional inerente ao trabalho em saúde mental.
